Muito provavelmente eu seja uma pessoa com TDAH.
Eu digo “muito provavelmente” porque o TDAH é um transtorno que não tem marcadores objetivos que você pode testar num laboratório como anemia ou uma perna amputada.
Mas eu também digo “muito provavelmente” porque, talvez pela causa anterior, mas não somente, muitas pessoas questionam a existência do TDAH, que talvez fosse uma invenção para vender medicamentos.
O que importa aqui é que algumas pessoas possuem certas características comportamentais associadas à capacidade de concentração e manutenção do interesse que acabam sendo prejudiciais em todas as escalas de prazos da vida: imediato, curto, médio e longo prazos.
Isso significa dizer que não importa se é uma tarefa de dez segundos, uma atividade para a semana, um estudo para o mês, um projeto para o semestre ou uma carreira para a vida. Em todos esses exemplos, sem exceção, a pessoa com TDAH vai perder o interesse e, dessa forma, a concentração no que quer que esteja fazendo antes de terminar, transformando a história de vida dessa pessoa, esteja ela olhando para a semana que passou ou para uma vida inteira, em um verdadeiro conjunto de coisas inacabadas, mal feitas, disfuncionais, fragmentadas, insuficientes, cuja única colaboração e resultado práticos que parecem ter para oferecer é a de fazer sua vida parecer um fracasso descomunal e digno de pena.
Não é distração.
Distração pode te matar ao atravessar a rua, é bem verdade, mas, de uma forma geral, todo mundo experimenta distrações várias vezes no dia e nem às percebe porque elas são irrelevantes o suficiente para que seu cérebro se cegue para elas, como ler passairnho sem perceber que eu coloquei o “i” antes do “r” intencionalmente.
Não. Definitivamente não é só distração.
É mais como você decidir lavar a louça escutar os pássaros na rua lembrar do Twitter que você nem usa mas lembrar do Instagram por causa do Twitter e lembrar que você não publicou o vídeo publicitário do seu livro que você deveria fazer toda terça e lembrar que você é escritor e lembrar que também é leitor e lembrar de As Veias Abertas da América Latina do Galeano e lembrar de política e lembrar que você tinha uma ideia e decidir registrar a ideia no computador pra não esquecer e perceber que as mãos estão molhadas secar as mãos ir até a mesa do PC ver a lista de tarefas lembrar que esqueceu de remarcar um atendimento perceber que você ainda não foi ver o que causa a dor no seu pescoço sentir uma aflição danada nos dentes decidir escovar os dentes lembrar que escova os dentes com a mão esquerda porque leu que isso poderia evitar um AVC que te faz pensar na velhice que te lembra uma música que te lembra do seu teclado que está na casa de um amigo que te dá vontade de voltar a estudar música você termina de escovar os dentes senta à mesa anota “teclado” na lista de tarefas e volta a lavar a louça.
Assim mesmo, sem uma única vírgula.
E então, por causa de um pássaro cantando na rua enquanto você lavava a louça, sua agenda da semana mudou completamente, você não vai mais ler naquela semana, nem escrever a ideia nova, nem ver qual a porcaria da origem da dor no seu pescoço. Não. Nessa semana você vai ser um tecladista.
Sim, você, formado em fisioterapia e em telecomunicações, que na verdade gosta de escrever, mas ensaia uns desenhos vez ou outra, por essa semana, vai dedicar o resto da sua vida inteira à música...mas só por essa semana.
O dia passa, essa semana vai passar e com ela vai o mês, o semestre, o ano e, de repente, passaram-se dez anos e no final...!
No final, você é uma pessoa com TDAH.